domingo, 18 de abril de 2010

As regras do artigo grego

As Regras Gramaticais Do Artigo Grego

ou como foi intitulado originalmente:

Análise de Duas Regras Gramaticais do Grego Koiné Aplicadas à Polêmica Passagem de Jo 1.1.



No princípio era o Verbo, e o Verbo era[1] com Deus, e Deus era o Verbo.

Introdução

Certa vez, disse a minha professora de grego que os deuses também me salvaram, visto que somente quando adentrei no ensino do idioma helênico foi que consegui ter uma visão mais normal do mundo, aprendi a valorizar a cultura, a arte, a música e voltar a conviver com as pessoas sem que sempre estivesse analisando se eram de Deus ou não, ou se frequentavam essa ou aquela igreja, como se isso fosse o único critério para julgar quem deveria ou não receber minha atenção e respeito. Apesar dessa visão um tanto medieval e tacanha, para não dizer simplista e preconceituosa, eu agia com sinceridade, era um modo de ver e julgar o mundo, e todos têm o direito de ver o mundo como querem, até mesmo com preconceito e critérios nem sempre admiráveis pelos cultos e intelectuais em geral. Ou iremos também ser preconceituosos?

O fato é que o curso de Extensão de Grego Clássico da UFC me salvou de uma vida sem fantasias e imaginações. A mitologia grega se mostrou para mim como um meio de adentrar na mente de um povo que se fez sentir em todas as áreas do conhecimento humano. Não é à toa que a Bíblia diz que, enquanto os judeus queriam milagres, os gregos buscavam sabedoria (1Co 2.22). Entre as duas coisas, como sou um homem de fé, eu prefiro a sabedoria (1Co 2.22). Para mim não é necessário milagres para que acredite em Deus ou busque amar meu semelhante, mas o conhecimento, particularmente, é fundamental para minha própria felicidade e das pessoas a quem esse conhecimento repasso (Pv 2.1-10).

A mitologia é um modo do homem acreditar no divino por meio do conhecimento cultural. Segundo René Mérnard, autor da obra clássica “Mitologia Grego-Romana”:

“Em nenhuma época da antiguidade foram os gregos feiticistas ou idólatras, no sentido que damos a tais palavras quando falamos dos negros do Sudão ou dos selvagens da Polinésia. Se por vezes, se diz o deus, ao falar de uma estátua, é preciso ver nisso apenas uma figura de linguagem. Os que não conheciam o verdadeiro sentido das palavras, diz Plutarco, chegavam a ENGANAR-SE sobre as coisas; assim os gregos, em lugar de chamarem as estátuas de cobre ou de pedra, ou as pinturas, simulacros em honra aos deuses, têm o hábito de chamá-las deuses”. A ênfase é minha. (Mitologia Grego-Romana, p. 15, volume 1).

O sentido de “idólatra”, apesar da etimologia morfológica da palavra significar “aquele que cultua ou serve a uma imagem”, refere-se mais a alguém que substitui o Deus verdadeiro por uma estátua ou qualquer outro objeto, como fez o povo judeu ao fabricar o bezerro de ouro, dizendo que era o Deus que os tinha tirado do Egito. Nesse sentido, os gregos não foram idólatras, nem podiam ser, não pensavam que estivessem trocando o Deus verdadeiro por imitações, apenas cultuavam muitos deuses; eram politeístas, não idólatras. E, se chamavam as estátuas de deuses, era isso, como diz o texto acima, uma figura de linguagem.

Assim como o Renascimento, que nada mais era que o retorno à cultura greco-romana, tirou o mundo das trevas e muito melhorou a religião, o estudo da língua e da cultura grega também me proporcionou um renascimento cultural. Por isso, os alunos religiosos, espirituais ou evangélicos do curso de extensão em grego clássico não devem rejeitar ou ridicularizar o estudo dos mitos, nem querer fazer comparações entre Deus e Cristo com esses deuses da cultura grega. São coisas diferentes e que, guardadas as devidas proporções, são valiosas e indispensáveis. Não é possível entender ou buscar o sentido de muitos vocábulos gregos sem o conhecimento da mitologia grega.

Como ilustração de como os cristãos primitivos viam e tratavam os politeístas gregos, cito o caso do Apóstolo Paulo, que quase foi morto por causa dos religiosos mercenários da cidade de Éfeso. Segundo o relato bíblico (livro de Atos, capítulo 19), os religiosos da cidade estavam descontentes porque a pregação do Apóstolo Paulo estava fazendo com que a venda de imagens da deusa Diana diminuísse. Por isso, um ourives (pessoa que trabalha confeccionando estátuas de metal), chamado Demétrio, criou um alvoroço contra a igreja cristã que o Apóstolo tinha fundado na cidade, queria levar os artífices a lutarem contra o cristianismo, afinal eles eram os que mais lucravam com as imagens da deusa e a crescente conversão dos efésios estava tirando o lucro deles. A razão, portanto, do levante de Demétrio e dos artífices contra a igreja não era por questões de crença ou de verdade religiosa, mas era o medo de perder dinheiro. O tumulto que ocorreu só foi apaziguado porque o escrivão da cidade disse: “Senhores, efésios, quem, porventura, não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter? Ora, não podendo isto ser contraditado, convém que vos mantenhais calmos e nada fazeis precipitadamente; porque estes homens (os cristãos) que aqui trouxestes não são SACRÍLEGOS nem BLASFEMAM contra vossa deusa” (Atos 19.35-37). Fica, portanto, claro, pelos grifos, que os cristãos primitivos respeitavam a religião dos outros. Não devemos, pois, zombar e ridicularizar crenças e cultos, cada um segue o deus e a religião que quiser, graças a Deus! (se preferirem: aos deuses!).

Nesse artigo, no entanto, quero discorrer sobre duas regras do grego koiné, língua na qual foi escrito originalmente o Novo Testamento e traduzido o Antigo, as quais serão diretamente relacionadas a uma polêmica religiosa.

Há uma grande divergência entre os religiosos sobre a divindade de Jesus Cristo. Para os cristãos tradicionais (católicos e protestantes), Ele era a segunda pessoa de uma Trindade, união de três pessoas que, juntas, são Deus. Já para a religião “Testemunhas de Jeová”, Jesus era um deus diferente daquele que seria o Deus maior ou principal. Um texto do Novo Testamento do Evangelho de João, capítulo 1 e versículo 1, tem causado um embate entre estes dois posicionamentos, pois para as Testemunhas de Jeová a última parte do versículo deveria ser traduzida por “e o verbo era [um] deus”. Para isso, elas tentam desconsiderar uma regra gramatical na brochura publicada por elas, intitulada “Deve-se crer na Trindade?”, para que Jesus não seja considerado igual a Deus.

Descobri, depois de muito pesquisar, que a polêmica girava em torno dessa regra de grego koiné, que é muito mal explicada em todos os compêndios e tratados que foram lançados no mundo inteiro. Caso essa confusão seja esclarecida, a polêmica acaba. Por isso, para a apreciação dos alunos do curso de extensão da UFC, trago à baila o resultado dessa pesquisa (este artigo foi inicialmente divulgado na Universidade Federal do Ceará). O valor desse estudo não está em dar a vitória a um dos posicionamentos religiosos, mas no aprendizado dessas regras gramaticais. Com a publicação do trabalho de Henrique Murachco (Língua Grega – visão semântica, lógica, orgânica e funcional) que tanto critica as gramáticas normativas de grego, é até uma ousadia um artigo como esse. Mas, querendo ou não o eminente professor, as regras existem ou acabam existindo dentro de uma língua, seja por ela, seja pelo povo.

Se o texto de Jo 1.1 apoiar as Testemunhas de Jeová, isso não quer dizer que os católicos e protestantes estejam condenados, ou o inverso. A questão diz respeito à fé e à exegese/interpretação bíblica, e um único versículo não é suficiente para decidir isso. Na verdade, o problema da regra mal elaborada está no fato de toda uma descarga religiosa está envolvida na questão. Somente quando fiquei menos tendencioso, é que pude ver como a fé ou a paixão religiosa atrapalha no estudo científico; o religioso deixa sua fé acima dos fatos e se recusa a decidir com isenção sobre os assuntos. Essa regra simples para a gramática de grego bíblico foi desfigurada de tal forma que parece que ninguém a entende de verdade. Por isso, eu disse acima que os religiosos que estudam o grego precisam sair dessa obtusa falta de discernimento livre de influências. Não devem temer que uma informação acabe com a sua fé, devem temer, antes, que a fé deles seja apenas assegurada pelas conveniências, e não pela verdade.

Explicando o que ocorre na tradução de Jo 1.1, também mostro como os gramáticos renomados (a maioria protestantes) deixaram as questões de fé dificultarem a explicação dessa regra da gramática de grego bíblico, e, por sua vez, como as Testemunhas de Jeová foram desonestas ao tratarem com desprezo essa regra, pelo mesmos motivos: questões de fé.

O artigo grego

Antes de tudo, precisamos entender um assunto básico em grego, que seria os usos do artigo grego.

Na oração grega: o` dou/loj pisto,j que se traduz por “o servo é fiel”, existem duas palavras (dou/loj: servo e pisto,j: fiel) e apenas uma delas tem o artigo grego (o` dou/loj). As duas palavras estão no caso grego nominativo, e o grego diz que o vocábulo que recebe o artigo seria o sujeito da oração, enquanto que aquele que está sem o artigo seria o predicativo, no caso, um adjetivo predicativo, que está asseverando a fidelidade do substantivo dou/loj.

Esta mesma oração poderia ser escrita de outra forma: pisto,j o` dou/loj

Neste caso, vemos que, apesar de o adjetivo pisto,V ter ido a posição inicial, a tradução ficou a mesma.

No entanto, se escrevêssemos as palavras gregas como nas frases abaixo:

a) o` pisto,j dou/loj

b) o` dou/loj o` pisto,j

A tradução das duas seria “o servo fiel”. Neste caso, em ambas as frases, o artigo grego está junto ao adjetivo pisto,j (fiel).

Nota-se, assim, que a posição do artigo grego alterou parcialmente o sentido dessas duas últimas frases gregas em comparação com as duas orações acima, apesar de terem as mesmas palavras.

Com base na gramática grega, podemos afirmar que, nas duas últimas frases: o` pisto,j dou/loj e o` dou/loj o` pisto,j, onde o artigo (o`) está junto do adjetivo (pisto,j), independente de o substantivo possuir ou não o artigo (na primeira frase ele está omitido), a localização do artigo, junto do adjetivo, estabelece que o adjetivo possui na frase um posição atribuitiva.

Já nas duas primeiras orações: o` dou/loj pisto,j e pisto,j o` dou/loj, em que o artigo (o`) está junto ao substantivo (dou/loj), o adjetivo possui uma função predicativa. Note-se também que o verbo de ligação grego está omitido (no caso seria evsti,: é). Daí se observa como é fundamental a posição do artigo na fraseologia grega. Na verdade, o artigo grego em suas declinações (ou flexões ou casos) é o ponto-chave para a análise sintática desse idioma.

Tudo isso é básico no estudo do grego. No entanto, os textos do Novo Testamento, particularmente os do apóstolo João, são muito cheios de particularidades que alguns consideram erros. Ao que parece, o Apóstolo João escreveu seus textos na linguagem falada. Seus escritos (Evangelho, Epístolas e Apocalipse) são os mais simples do Novo Testamento grego, repetem muitas palavras, pouco buscando sinônimos para enriquecer o texto (e olha que a língua grega é riquíssima em sinônimos, as mínimas nuances podem ser feitas apenas pelo simples uso de palavras escolhidas ou criadas). Minha hipótese diante disso é a de que João não dominava o grego koiné, falava, como dizem os historiadores bíblicos, o aramaico, tendo de se valer de seu grego coloquial para escrever seus textos. Todavia, isso ajuda no estudo do grego koiné e do grego clássico, pois, em se conhecendo essas “falhas” literárias dos textos gregos do Apóstolo João, podemos perceber as diferenças, as evoluções e até as regras de grego koiné, que será o caso do presente artigo, com a qual será explicada uma regra desse grego, usado no final do século primeiro.

A regra da posição

Na primeira epístola de João, capítulo 3 e versículo 4, lemos:

h` a`martia evstin h` avnomi,a, que literalmente traduzido seria: “O pecado é a injustiça”, mas se pode abrir a possibilidade para outra tradução “A injustiça é o pecado”.

Como se percebe, não é fácil saber quem é o sujeito em 1Jo 3.4, sabendo que em grego a posição da palavra na frase não é relevante.

Como vimos acima na frase grega: o` doulo,j o` pisto,j, duas palavras gregas acompanhadas de artigo não permitem que o adjetivo tenha a função predicativa. Mas na frase mostrada há pouco, o verbo “ser” na terceira pessoa do singular (evstin) está entre duas palavras acompanhadas de artigo. Ora, estando as duas palavras no mesmo caso, no nominativo (que tem a função de sujeito), não se pode dizer qual delas é o sujeito da oração. A única maneira pela qual julguei possível saber qual dos vocábulos era o sujeito foi pela posição, o que tornaria o grego parecido com o português, onde a posição da palavra na sentença não pode ser desconsiderada. Assim a tradução ficaria “O pecado é a injustiça”, sendo confirmada pela tradição tradutória de todos assim terem entendido.

O que fez 1Jo 3.4 ser traduzido correto nas traduções mais antigas foi o próprio “instinto” tradutório, já que é melhor e mais fácil deixar a tradução com a mesma ordem das palavras em que se encontram no original grego. No entanto, estudando e traduzindo os textos, acabei por perceber que havia mais alguma coisa além desse instinto tradutório num texto como 1Jo 3.4. Na verdade existe uma regra grega ou um conceito norteador.

Estabeleci que em 1Jo 3.4 h` a`marti,a é o sujeito da oração por uma regra tradutória, que demonstra que a língua grega no tempo do Apóstolo João havia passado por uma evolução, estava mudando, o que obrigaria a gramática a mudar também. Portanto, o Apóstolo João não erra em seus escritos, na verdade eles são o reflexo do dialeto koiné de seu tempo. Por isso, crio a regra da posição para esse grego koiné evoluído: A posição da palavra grega em algumas passagens do Novo Testamento grego também pode indicar função sintática, o que é uma grande novidade na língua grega, já que a posição das palavras serviam apenas para ênfase, nunca para função sintática. Depois percebi que esse grego koiné mais avançado, como parece ser o do Apóstolo João, que confirma a tradição que este foi o último Apóstolo a morrer, possui uma regra típica, que um grande erudito (Ernest C. Colwell) em grego descobriu. Sua regra consistia no enunciado: Quando o predicativo anartro (omitido) vier precedendo o verbo, deve ser entendido como definido. Mas, ao que parece, Colwell não percebeu o porquê da sua regra, de estar vinculada a um outro conceito, surgido de uma nova fase pela qual passou o koiné, regra ou conceito esse que acima defini.

Outros textos bíblicos repetem o que ocorre em 1Jo 3.4, como Jo 6.63; 1Jo 2.7; 4.15; 5.1, 6; Ap 5.12; 13.10; 20.14.

Deus era o verbo

A força de Jo 1.1 como prova da divindade de Jesus Cristo é tão grande que fez as Testemunhas de Jeová (T. J.) se tornarem politeístas, pois traduziram o versículo de modo que ele mostra que há mais de um Deus. Nada demais em ser politeísta (crer em muitos deuses). Só não sei é como as T. J. conciliam isso com o monoteísmo bíblico (crer em um único Deus) que elas mesmas dizem acreditar.

Encontrando-se logo no início do quarto Evangelho, a afirmação do versículo ganha ênfase e preponderância de modo convincente. O Apóstolo escreveu seu Evangelho tendo a divindade de Jesus como alvo primordial. Outras passagens, como Jo 1.18; 5.18; 10.30; 14.9; 20.28, confirmam isso. A ideia de que o contexto de Jo 1.1 favorece a colocação do artigo indefinido “um” pela clara distinção de pessoas apontadas dentro do próprio versículo não é aceitável, exatamente porque o Pai e o Filho são declarados como distintos no credo trinitário. Jo 1.1 simplesmente diz juntamente com Jo 5.18 e Jo 10.30[2] que Jesus é igual a Deus. O contexto imediato do versículo é mais ainda persuasivo para isso. Quando afirma que nada de tudo que foi feito veio a existir sem a participação direta de Jesus Cristo, portanto, colocando-o como criador de tudo, Ele seria o próprio Deus. Este era o argumento do Apóstolo em favor de sua própria declaração.

São citadas nove traduções na brochura “Deve-se Crer na Trindade?”, p. 27, na tentativa de apoiar a Tradução Novo Mundo (tradução própria das T. J.) em Jo 1.1 que insere o artigo indefinido, mas apenas duas se constituem de um real apoio, a “The New Testament In an Improved Version, Upon The Basic of Archbishop Newcome’s New Transtation: With a Corrected Text” e a “The Emphatic Dioglott”, versão interlinear, de Benjamin Wilson. No entanto, foram essas as traduções que serviram de base para a tradução Novo Mundo, portanto, na prática, apenas duas traduções, juntamente com as das T. J., defendem a ideia de Cristo ser uma divindade separada da do Pai eterno. As versões restantes que traduzem a última sentença de Jo 1.1 dizendo que Cristo era “divino” ou da “espécie divina” de forma alguma estão dizendo que Jesus não era Deus. Na verdade, estão asseverando que o “Logos” tinha a mesma natureza de Deus (Hb 1.3), confirmando a doutrina da Trindade que afirma que o Filho é distinto do Pai (o Verbo estava com Deus), mas idêntico na natureza (era divino).

Tentando ainda justificar o acréscimo do artigo indefinido “um” em Jo 1.1, os autores da brochura lançam mão de outras referências bíblicas que também recebem o mesmo artigo em condições semelhantes (Mc 11.32; Jo 6.70; 8.44; 9.17; 10.1 e 12.6). Mas, se considerarmos atentamente as referências citadas, veremos que não há nenhuma necessidade da inclusão do artigo indefinido. Todas elas podem ser traduzidas sem o artigo, não havendo nada de estranho em suas omissões. Qual a diferença de “esse foi um homicida” e “ele foi um mentiroso” para “ele foi homicida” e “ele foi mentiroso” na tradução de João 8.44 quando Cristo falava sobre o Diabo? Nenhuma, a não ser a de singularizar mais claramente a obra do Diabo, e, sem dúvida, o Diabo é mais homicida e mentiroso do que qualquer outro, como o verso destaca: “fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”. Além do mais, as regras de português nos dizem que algo que já foi citado, ganha definição, por exemplo: “vi um gato correndo, e o gato era malhado”. Portanto, é bem melhor não ser colocado o artigo indefinido na tradução de Jo 8.44.

Até mesmo em Atos 28.6, tão alardeada como a passagem xeque-mate para o entendimento de Jo 1.1 pelas Testemunhas de Jeová, a inserção do artigo indefinido é desnecessária, pois a declaração do Apóstolo Paulo ser Deus foi feita pelos pagãos. Assim, o texto dever ser traduzido como está no original, ou seja, com os pagãos chamando o Apóstolo Paulo de Deus, pois, para eles, Deus era qualquer ser ou evento inexplicável, quanto mais de extraordinário existisse em alguém, mais sua divindade seria aceita, até o ponto de ser então considerado o Deus exclusivo ou de devoção pessoal acima dos demais, fosse de um grupo, fosse de uma cidade.

O texto de Jo 6.70, que chama Judas Iscariotes de Diabo, também não precisa receber o artigo para ter sentido, afinal o Diabo entrou em Judas (Jo 13.27), e Jesus noutra ocasião chamou Pedro de Satanás, quando este tentou dissuadi-lo de morrer na cruz (Mt 16.23).

Mas o texto de Jo 1.1 é bem mais diferente desses casos abordados. Quando esses tradutores inserem o artigo indefinido, além de mudar radicalmente a interpretação, anulam o monoteísmo da Bíblia Sagrada.

Citando um artigo do “Journal of Biblical Literature”, a brochura “Deve-se se Crer...”, na p. 27, afirma que as expressões com o substantivo anartro (sem artigo) precedendo o verbo, tem primeiramente sentido qualificativo, sendo, portanto, um indicativo de que o “Logos” em Jo 1.1 pode ser assemelhado a Deus, mais ainda fica confirmado que Jesus é igual a Deus, e não o contrário.

Sem se aperceber da própria declaração, os autores da brochura “Deve-se Crer na Trindade?”, p. 28, passam então a citar um suposto grupo de expressões sinônimas: “Assim, Jo 1.1 destaca a qualidade da Palavra, que era ‘divina’, ‘semelhante a Deus’, ‘um deus’, mas não o Deus todo-poderoso”. Ora, fica evidente a tentativa de encaixar a expressão “um deus” como sinônima de “divino” e “semelhante (igual) a Deus”. Nisto perguntamos: A pessoa do Pai não é divina? Quem é semelhante a Deus também não possui todo o poder?

Jesus é divino, ou seja, tem a natureza de Deus. É isso que os trinitários sempre disseram. Todavia, deve ser dito: Apesar de o segundo “Theos” de Jo 1.1 ser classificado como predicativo, sendo portanto um termo qualificativo, pois está dizendo o que Jesus era, nem por isso poderemos traduzir “divino” em vez de “Deus”. Se, por exemplo, fosse dito que João Batista era Elias, querendo asseverar serem a mesma pessoa, apenas com nomes diferentes, não seria certo dizer que João Batista era “eliasante” ou coisa parecida. Além disso, se João quisesse chamar Jesus de divino, como pretendem as Testemunhas de Jeová, teria usado a palavra grega qei,oV (divindade), coisa que não o fez.

A citação de John L. Mckenzie (Dictionary of the Bible – Nova York: Macmillan Publishing Co., 1965), na p. 28 da blochura “Deve-se crer na Trindade?”, de que João 1.1 deve rigorosamente ser traduzido por “a Palavra era um ser divino”, não deve ser subentendida, como se esse estudioso quisesse dizer que a Palavra era algo menos do que Jeová, Robert Bowman, escritor de um livro contra essa brochura, p. 91, observa que, na mesma página em que Mckenzie afirma isso, ele também denomina Yahweh (Jeová) de “um ser divino pessoal”, e acrescenta: “Mckenzie também declara que Jesus é chamado “Deus” em João 20.28 e em Tito 2.13, e que João 1.1-18 expressa “uma identidade entre Deus e Jesus Cristo”.

O detalhe que Mckenzie quer destacar do texto de Jo 1.1 é extremamente válido se conhecermos bem os motivos que o levou a tal destaque. O Apóstolo João em Jo 1.1 estava definindo quem era o Verbo, mas, ao fazer uma mudança estrutural na escrita, ele acabou escrevendo que Deus era o Verbo, e não o contrário, ou seja, que o Verbo era Deus. Ora, ele deveria dizer – já que estava falando do Verbo, quem Ele era, e não quem era Deus, afinal, o substantivo “Deus” no texto não é o sujeito, mas, com a troca de posição das palavras, acabou assumindo o lugar do sujeito. Por isso, costumamos simplesmente traduzir “o Verbo era Deus”, e não ao pé da letra “Deus era o Verbo”. É, portanto, isto que o erudito está tentando explicar ou querendo que seja notado ao dizer que a tradução poderia ser “o Verbo era divino”. O Apóstolo João inverteu a posição do sujeito e do predicativo ao escrever Jo 1.1, com essa inversão, o escritor sagrado criou uma ênfase no predicativo, que em vez de negar a divindade de Cristo, mais ainda a asseverou.

Compreendendo a regra que aqui estabelecemos de que a posição das palavras em grego koiné também indicam função sintática, fica perfeitamente claro porque João omitiu o artigo grego no segundo Theos de Jo 1.1, que era indicar a função predicativa.

Se violássemos a regra

Referente à regra de Colwell que impede a tradução das Testemunhas de Jeová em Jo 1.1, diz Russell Champlin: “Se fosse acrescentado o artigo indefinido em cada vez que este não aparecesse antes de um substantivo, a tradução transformar-se-ia num caos. Por exemplo, o v.14 desse capítulo 1 do Evangelho de João diria: ‘e o Verbo se tornou UMA carne...’, o versículo 18 desse mesmo capítulo seria: ‘Ninguém jamais viu UM Deus’, notemos que, nesse caso, é uma referência bem definida a Deus-Pai, o que nos forçaria a chamar o Pai de ‘um Deus’. Por sua vez, o versículo 6, outra clara referência a Deus-Pai, diria: ‘um homem enviado de UM Deus’. Daí podemos perceber a situação que a coisa ia ficar, e observe que tais considerações não saíram do capítulo 1 do Evangelho de João. Não é, pois, à toa que a regra existe” (Novo Testamento interpretado versículo por versículo, volume 2, p. 256).

Outros exemplos que podemos citar, além destes de Champlin, são: “...ele (Jesus) é UM bom” (1Jo 1.5); “Ele (Jesus) é UMA propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2.2). Neste caso, o artigo definido é impossível de não ser considerado, e, no entanto, está omitido no original; “Filhinhos UMA última hora já é...”(1Jo 2.18); “E a si mesmo se purifica todo o que n’ Ele tem esta esperança, assim como Ele é UM puro” (1Jo 3.3); “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, UM Deus não tem” (2Jo 9); “...e sabeis que o nosso testemunho é UM verdadeiro” (3Jo 13).

Em todos estes casos, o substantivo precede o verbo como em Jo 1.1. Seria, pois, insensato desconsiderarmos a regra, e é ignorância chamar essa regra básica de grego koiné de artificial, como fazem os autores da brochura “Deve-se Crer na Trindade?”, na página 28.

Desenvolvendo a regra de Ernest C. Colwell

A maneira como as Testemunhas de Jeová expõem a regra de Colwell de modo algum demonstra a importância da mesma. Lemos na “Deve-se Crer na Trindade?”, p. 28: “Alguns afirmam, porém, que tais traduções (as que inserem o artigo indefinido em Jo 1.1) violam uma regra de gramática do grego coiné publicada pelo perito em grego E.C.Colwell, em 1933. Ele afirmou que em grego o substantivo predicativo ‘tem o artigo [definido] quando segue o verbo; não tem o artigo [definido] quando o precede’. Com isso ele quis dizer que um substantivo predicativo que precede o verbo deve ser entendido como se tivesse o artigo definido (“o”) na frente dele. Em Jo 1.1 o segundo substantivo (The-ós), o predicativo, precede o verbo – ‘e (The-ós) era a palavra’. Assim, afirmou Colwell, João 1:1 deve rezar ‘e (o) Deus era a palavra’”.

Ora, dizer que o artigo definido é omitido quando precede o verbo e não o é quando o segue mais parece uma questão de modo de se escrever (estilística) do que uma regra. O fato é que o artigo pode ser omitido ou não no texto grego quando precede o verbo, mas deve ser entendido como definido na tradução, e assim deve ser considerado para não ter de escrevê-lo novamente ou para se fazer uma boa ênfase, como faz o Apóstolo João no prólogo de seu Evangelho. Portanto, as Testemunhas de Jeová não explicam quando o artigo omitido é indefinido quando citam a regra de Colwell e parecem escrever algo que não estão realmente entendendo (ver a brochura “Deve-se Crer na Trindade”, página 28). E elas não dizem quando o artigo é indefinido em grego, porque os gramáticos, ao citarem a regra, pensam em Jo 1.1 e em toda essa questão religiosa, daí citam a regra para mostrar que em Jo 1.1 o artigo do segundo substantivo “Deus” deve ser entendido como definido. Ora, a regra devia ser exposta para afirmar quando ocorre o artigo indefinido no grego, porque este não existe nesse idioma, e não para dizer que em Jo 1.1 o artigo é definido.

Portanto, é preciso perguntar qual a razão de Colwell dizer que o artigo omitido (anartro) será definido quando o substantivo predicativo preceder o verbo para então encontrarmos a regra grega. A resposta é simples: Se o substantivo predicativo estiver SEM o artigo definido E NÃO PRECEDER O VERBO, ele será INDEFINIDO (Jo 2.15; 3.1; 4.7; 5.1; 6.9; 9.14; 12.29; 13.4; 19.19, 41; Mt 1.21; 5.28; 8.2, 5, 24, 30; 9.2, 9, 20, 32; 11.8, 9; etc). Portanto, o objetivo da regra era dizer quando ocorre, num predicativo nominal, o artigo indefinido, que como já foi dito, em grego não existia. Quando precede o verbo, o artigo é facultativo, ou seja, pode vir ou não expresso, mas SEMPRE será definido, mas, quando o segue, só será indefinido quando o artigo for omitido.

Há casos, no entanto, em que, mesmo a regra valendo para a colocação do artigo indefinido, nada atrapalha se não o inserirmos, como acontece em Jo 19.17, pois tanto faz ser traduzido “que é um profeta” como “que é profeta”. Todavia, a validade da regra ainda será sentida, pois, em hipótese alguma, se poderia pensar que o homem curado de Jo 19.17 tenha dito que Jesus era “O profeta”, o qual havia previsto Moisés que surgiria. Nestas condições, sim, a colocação do artigo dependerá do contexto.

O que deve ser ressaltado é que a omissão do artigo no segundo Theos em Jo 1.1 não é do artigo indefinido, mas do definido, de modo que, se o artigo fosse inserido, o texto diria “e o Logos era o Deus”, como disse Colwell. Existem várias outras passagens bíblicas, onde a mesma construção grega de Jo 1.1 com dois “Theos” acontece, e sempre o “Theos” sem artigo refere-se ao mesmo Deus (Mc 12.27; Lc 20.28; Jo 8.54; Hb 11.16). Portanto, a omissão do artigo era mais uma prova de igualdade do que diferença. Ora, é na igualdade e na repetição que omitimos, e não o contrário.

Apesar de não existir o artigo indefinido (um, uma, uns, umas) em grego, existia o numeral, o qual fazia a equivalência do indefinido, como ocorre em Mt 8.19; Mc 12.42; Ap 8.19, e João poderia tê-lo usado para dizer que Jesus era um deus como querem as Testemunhas de Jeová.

Se João tivesse escrito da maneira normal, não deixando o artigo omitido, ele teria realmente dito que Jesus era Deus, mas não seria enfático nem unificador. Portanto, o Apóstolo procurou dizer que Jesus era Deus da maneira mais forte possível. Assim, ele teve o trabalho de omitir o artigo e de pôr o substantivo predicativo precedendo o verbo, exatamente para demonstrar a sua perfeita consciência de que estava chamando Jesus Cristo de Deus.

O Dr. William Carey Taylor, por mim considerado a maior autoridade que existiu em grego koiné no Brasil, explica a ênfase pela posição da palavra em sua gramática, p. 394: “Numa língua como a grega não é preciso expor o pensamento e a relação das palavras pela sua posição e arranjo na sentença, senão em relação ao artigo e à integridade das cláusulas. Por conseguinte, uma palavra pode cair em qualquer posição na sua cláusula ou sentença simples. Isto pode indicar grande ênfase por inverter a posição de um vocábulo, colocando-o no princípio ou no fim de uma sentença, os lugares de maior ênfase”. Ocorre isso na terceira sentença de Jo 1.1: O substantivo predicativo (Deus) é colocado no início da oração criando uma ênfase em que Jesus é chamado de Deus sem lhe dar uma singularidade, que poderia indicar uma possível divindade paralela e independente da do Pai, ou seja, a posição do substantivo não permite se entender que Jesus era Deus fora do Pai, Ele era o mesmo Deus da frase anterior. O Apóstolo assim, pôs as bases da doutrina da Trindade de um modo muito inteligente para não dizer inspirado, de uma maneira que só o grego koiné poderia fazer.

Uma última observação para fechar essa questão com “chave de Davi” (Ap 3.7): É muito elucidativo, na explicação da ausência do artigo definido no segundo Theos de Jo 1.1, a construção gramatical de João 1.21. Neste versículo, os judeus fazem duas perguntas a João Batista. A primeira é se ele era Elias; e a segunda se ele era o Profeta. A construção das duas perguntas é idêntica à de Jo 1.1, com o substantivo predicativo precedendo o verbo, sendo que somente na primeira o artigo definido é omitido, exatamente porque não ficaria bem dizer “És tu o Elias?”, afinal só existiu um profeta Elias. Da mesma forma, se João tivesse inserido o artigo definido na última sentença de Jo 1.1, dizendo “e o Verbo era o Deus”, estaria indicando a existência de outros deuses, além de dizer que Jesus era um Deus diferente do Pai. Deve-se lembrar, contudo, que, para dizer “e o Verbo era o Deus”, o arranjo das palavras teria de mudar em grego, no caso, em vez de João ter escrito qeo.j h=n o` lo,goj ficaria o` lo,goj h=n o` qeo,j, exatamente por causa da regra que aqui estabelecemos: A posição das palavras também indicam a função sintática. No caso, para que o` lo,goj continuasse tendo a função sintática de sujeito da sentença, deveria estar na posição inicial.



[1] Nesta tradução, o autor prefere o “era com Deus” em lugar do comum “estava com Deus”. Enquanto a primeira tradução transmite a ideia de identidade entre Jesus e o Pai, reforçando a última declaração de que “o Verbo era Deus”, a segunda sugere um sentido de posição do Verbo em relação a Deus, que apesar de confirmar o conceito trinitário de Jesus ser distinto do Pai, também serve como suporte para separar os dois da unidade divina.

[2] Veja na pág. o comentário de Jo 10.30.

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